sábado, 8 de março de 2008

Dia 33: Negreira - Olveiroa

Agora estou a lamentar o passado. Estou na última página do meu diário. Restam onze linhas de texto que foram escritas no terminal de autocarros de Vigo, já de regresso a Portugal. Não o cheguei a actualizar. Faltam-me dois dias no Caminho. Vou tentar recuperar o passado por aquilo que ainda me lembro. Não sei o que vai sair daqui...

Amanhecer

Acordei um pouco depois das 6:00. O Denis já estava de pé, mas a maioria ainda dormia. Sabíamos que a etapa desse dia iria ser dura. Tínhamos que subir uma montanha em 10 quilómetros. Fomos os segundos a sair do albergue, logo a seguir a um casal de Franceses. Ainda era noite cerrada e estava bastante nevoeiro. O Denis tinha uma lanterna bastante poderosa, daquelas de colocar na testa. Sem ela, seria bastante complicado encontrar o caminho.

O magnífico Caminho de Finisterra

O dia amanheceu com uma névoa fabulosa. O caminho de Finisterra sempre me fascinou mais pela sua mística pagã, e naquela manhã, estava como que a caminhar por uma terra longínqua de Celtas, totalmente desligada que qualquer contexto religioso que a ligasse ao Caminho Francês. Estava finalmente a perseguir o sol até ao oceano, no meio da natureza.

Como adoro névoa

Era muito difícil encontrar um peregrino no Caminho. Apesar de os albergues encherem, a maioria andava a fazer batota. Muitos caminhavam apenas 10 quilómetros e chamavam depois um táxi. Outros iam mesmo de autocarro o percurso todo. O percurso até Finisterra é duro pela sua distância nas etapas mais conhecidas. A desse dia iria ser 37km. O mesmo no dia seguinte. E o terreno não era plano. Os que faziam o caminho totalmente a pé, contavam-se pelos dedos de duas mãos. Era portanto um caminho muito silencioso. Eu e o Denis rapidamente encontrámos um ritmo comum para o Camino. Era um excelente companheiro de Camino.

A caminho de Vilaserio

Subimos a montanha até Vilaserio. Não foi uma subida acentuada. Fez-me muito bem no meio campos, arvores, trilhos na terra, névoa e muros de pedra. Em Vilaserio parámos para um bocadilho e para descansar as pernas. Um cão monstruoso dormia ao lado da entrada da porta do café. Parecia que toda a gente na Galiza tinha um cão, sendo o tamanho mínimo aceitável igual ao de um pastor alemão. Quanto maior melhor. Foi assim desde a entrada na Galiza em O Cebreiro.

Caminho silencioso. Apenas eu e o Denis.

Havia algo no meu mapa que me estava a preocupar. Um pico de nome Monte Aro que me parecia um pequeno desafio. No entanto, no sopé do monte, começámos a encontrar avisos de um desvio no Camino. O Camino estava temporariamente cortado em direcção ao Monte Aro. Contornámos o monte, andando um pouco mais, mas evitando assim a subida e descida a pique.

Camino

Perto do Monte Aro, não posso deixar de me lembrar do odor fenomenal a bosta de vaca. Ui! Que intenso. Se é possível alguém desmaiar com o cheiro activo de bosta de vaca, muito possivelmente seria cheirar directamente a fonte daquele odor. O Carlos tinha-me avisado na noite anterior, de uma forma nada subtil "Cuidado com o cheiro da merda!". O Carlos já tinha feito aquele caminho há uns anos atrás com os seus amigos.

Caminho. Sempre verde e castanho

Do outro lado do monte, avistámos o lago de Fervenza. A vista é magnífica. Pareceu-me muito agradável, com as suas povoações rodeando a extensão de água, mas o caminho passava ao lado do lago. Estávamos numa posição alta, e assim que descemos um pouco mais, deixámos de ver o lago.

Lago Fervenza à distância

O dia já ia avançado, e tanto eu como o Denis ansiávamos por algum café onde pudéssemos parar. Estava quase sem água nenhuma, e tinha já alguma fome. Mas parecia que em todos os pueblos por onde passávamos, nenhum deles tinha um café ou mini-mercado. Nada.

Finalmente a exaustão venceu. Sentei-me à beira do caminho, no chão. Não podia avançar nem mais um passo. Tinha algumas coisas na minha mochila que podia comer. Um pêssego e uma barra de cereais. O Denis ainda tinha uma maçã. Dividi um Kit-Kat com o Denis. Não podíamos estar muito longe de Olveiroa.

A caminho de Olveiroa

Continuámos caminho, e de facto, logo ao virar da esquina, encontrámos a entrada para Olveiroa. Chegámos ao albergue. Era lindo! O albergue não era um só edifício. Penso que seriam uns cinco edifícios de pedra, totalmente reconstruídos. Duas casas com camas, a casa da recepção com uma sala de convívio e uma casa para a cozinha e sala de refeições. A casa principal com camas já estava lotada! Era o problema dos "turigrinos". Mas esse facto não me chateava minimamente. Cada um fazia o seu próprio caminho. A hospitaleira conduziu-me juntamente com o Denis, gozando que ninguém iria dormir na rua, pois ainda restava um edifício para abrir... o estábulo! Pensei que ela estivesse a brincar, mas na verdade, abriu-nos uma porta que dava para um estábulo. Umas escadas conduziam a um piso em madeira na parte superior com seis camas, muito acolhedor. Sossegou-nos dizendo que naquele dia não chegaria nenhum peregrino a cavalo.

Albergue de Olveiroa

O Carlos, na noite anterior, disse-me que iríamos ter uma surpresa em Negreira, mas não queria contar para não a estragar. Desiludido, contou-me que a surpresa era que a hospitaleira tinha a tradição de fazer uma enorme sopa para todos os peregrinos na sala de refeições, mas que tinha deixado de o fazer devido a pressões do novo restaurante que tinha aberto ao lado do albergue. A hospitaleira ainda deu a deixa de que ela não poderia fazer, mas se alguém quisesse...

Ao fundo, um dos pequenos recantos do albergue, um pátio com mesas e bancos.

Mais tarde, com o meu quarto já cheio, uma sétima peregrina mudou-se para lá, de uma cama na casa principal para o chão. Disse-me que ali era mais sossegado, pois já tinha detectado um ou dois roncadores no enorme quarto comum da casa principal.

Vista da janela do quarto para o albergue

Fui jantar com o Denis a um restaurante. Como sempre, pedimos vinho, e aceitámos a sugestão do vinho da casa. O vinho veio e provei-o. Olhei para o Denis que também o provou. "Naaa... something's not right". Chamámos a empregada. "O vinho está estrado!". Ela avisou-nos que o vinho ali era um bocado para o... verde, e se não queríamos um outro diferente. Dissemos que não, que podia vir do mesmo. Veio outra garrafa. Provámos, e... arggg ele não estava estragado! O PIOR vinho que já bebi em toda a minha vida. Mais tarde juntou-se a Jasmine, o Alemão, a Coreana, o Carlos, o Bruno, um espanhol e duas alemãs. Todos ofereciam o seu vinho a todos. Ninguém queria o vinho... isto é, nos primeiros copos, porque depois começou a saber melhor hehe.

De volta para o albergue juntamente com as duas alemãs encontrámos o Miro. As duas alemãs tinham começado o Caminho em Muxia e dirigiam-se na direcção de Santiago de Compostela. Falaram as maravilhas do Caminho de Muxia para Finisterra. Lamentei não ter tempo para o fazer. O Miro proporcionou a todos um final de noite com música e risos.

Um grupo já muito divertido. As alemãs, Miro e o Denis. Tenho que pedir ao Miro a foto dele a beijar a careca do Denis!

No dia seguinte seria o meu último dia no Caminho. Iria chegar ao oceano, a Finisterra.

Dia 32: Santiago de Compostela - Negreira

Apesar de ter um quarto todo só para mim, às 6:00 já estava acordado. Tomei o pequeno-almoço num café que já estava aberto na rua da pensão. Dos poucos clientes, os mais idosos bebiam os seus pequenos copos de uma qualquer bebida alcoólica como manda a regra, de penalty. Observava os hábitos tão diferentes dos meus à medida que bebia o meu café com leite. Em Portugal, num café, devo ter bebido no máximo uns dois cafés com leite, o vulgo "galão". Ali, no caminho, tornara-se um hábito diário. Era energia que necessitava. Às 7:00, ainda noite cerrada, estava na rua, pronto para sair de Santiago.

Santiago ao longe

Mesmo no fim da Rua das Hortas, ainda em Santiago, encontrei o Denis. Caminhámos juntos. Não apenas por um instante, mas durante três dias, até Finisterra, além do quilómetro zero.

Denis a sair de Santiago

Perdêmo-nos á saída de Santiago, depois de atravessar a ponte Sarela. Subimos um monte que não devíamos. No topo, encontrámos uma pequena localidade em que uma mulher idosa, já acordada e à janela da sua casa, nos avisou que o caminho era lá atrás, bem lá em baixo. Por uma coincidência incrível, nesse dia enganámo-nos no caminho por três vezes, e foi sempre uma mulher à janela de uma casa que nos avisava que aquele era o caminho errado.

Os sinais do caminho mais escondidos

O caminho de Finisterra é muito diferente do Francês. Estavamos mal habituados com os cafés à nossa espera em cada pueblo. Só encontrámos o primeiro café em Ventosa. Pausa para um bocadilho quente. O gato do café era psicótico! Nunca tinha visto nada assim. Tirámos umas dez fotos ao gato alucinado. Ele gostava de ser a estrela da maluqueira.

Psyco-Cat a tentar desfazer a minha mochila

O percurso mais difícil desta etapa foi a subida de quase 200 metros em apenas 1 km. Não sei porquê, talvez por o dia anterior ter sido um dia atípico, estava bastante cansado neste dia. Muito mesmo.

A caminho de Pontemaceira

A localidade de Pontemaceira é o ponto alto do percurso. É deslumbrante. Parámos para uma caña numa esplanada com vista para o rio e para a ponte de modo a admirar o local por um bocado.

Pontemaceira

Denis a atravessar a ponte

Um local muito belo

Pontemaceira

O meu guia não podia estar certo. Mostrava só 18 quilómetros até Negreira, mas de facto, penso que foram uns 24 quilómetros. Custa sempre muito mais quando somos enganados com as distâncias para menos daquilo que realmente são. O cúmulo foi uma placa que indicava "Albergue: 2km" que... bem, até gozei que deveriam ser quilómetros Galegos. So podia!

A caminho de Negreira

Camino

O albergue situa-se na outra extremidade oposta de Negreira, quase fora da cidade, no topo de um monte. Era um albergue pequeno, com poucas camas. No exterior, encontravam-se permanentemente montadas naquela altura do ano, três grandes tendas. Fomos dos primeiros a chegar, mas no final do dia, todas as camas estavam ocupadas, o chão das tendas lotado e a sala comum do albergue coberta de colchões. Ao contrário do que pensara, talvez por ter encontrado apenas três peregrinos em toda a etapa no Camino, estavam muitos a fazer o caminho de Finisterra. Muitos deles tinham começado o caminho em Santiago de Compostela, tendo já terminado um dos outros caminhos mais distantes em anos anteriores. Outros, estavam a fazer o caminho inverso, tendo partido de Finisterra ou de Muxia. Mas a maioria, vinha do caminho Francês.

Negreira

Fui almoçar com o Denis a um restaurante na cidade. O vinho era excelente. A comida também. Finalmente reabasteci-me num supermercado. Já há uma semana que não ia a um supermercado.

No albergue, durante a tarde, aos poucos iam chegando os peregrinos que nos iriam acompanhar nos próximos dias. Os dois Londrinos completamente alucinado, a Jasmine, a Coreana e o Alemão, o Miro. Finalmente conheci os primeiros Portugueses no caminho! O Carlos e a mulher, a Margarida. Tinham começado em Santiago e iam para Finisterra. Foi estranho ouvir Português no Caminho pela primeira vez em quase cinco semanas. Inicialmente tinha que pedir ao Carlos para repetir o que dissera porque o meu cérebro estava virado para o Espanhol, Inglês, Italiano, Alemão e todas as outras línguas que me habituara a ouvir no Camino.

O Carlos e a Margarida já tinham feito o caminho Inglês no passado, e divertiram-nos com algumas histórias peculiares da sua aventura num caminho muito duro e pouco frequentado. Conheci também o Bruno, um brasileiro que me iria acompanhar de volta a Santiago, e a Marlene, uma brasileira que nesse mesmo dia, fazia uns supreendentes 50 anos. Não parecia NADA! O Carlos e a Margarida foram comprar um pequeno bolo e velas e cantámos os parabéns no albergue. O seu companheiro de caminho, o Léo, também estava lá, chegando sempre mais tarde, devido a enormes dificuldades físicas.

O bolo de aniversário. Miro, Margarida, Marlene e o Londrino.

Para o jantar, o Denis fez uma "pasta" com tomate, cogumelos, cebola e abacate divinal. Dividimos uma garrafa de vinho. Deitei-me um pouco depois das 22:00. O Carlos deitou-se logo de seguida. Era a sua primeira noite num albergue. Após entrar no quarto e ouvir o primeiro roncador, digno desse título, não se conteve em soltar um "fouuuda-se!" (ler com sotaque do norte). Hehe. Português sem dúvida alguma. Iniciantes num caminho populado. Adormeci rapidamente. Estava exausto.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Dia 31: Monte do Gozo - Santiago de Compostela

Acordei às 6:00. Não tinha sono. Estava ansioso. Era cedo demais para entrar em Santiago, mas não conseguia dormir mais. Tomei o pequeno-almoço à porta do edifício onde dormi, falando com quem aparecia. Surgiu o Walter, o brasileiro que partilhara o meu primeiro quarto no dia anterior. De modo a levar a sua bicicleta no avião de volta para o Brasil, empacotara-a numa enorme caixa. Apareceu à porta do edifício a arfar, tentando carregar a enorme caixa e a mochila de duas bolsas, comum a todos os peregrinos de bicicleta, com os seus 20kg. A paragem de autocarros para o aeroporto situa-se na outra ponta de San Marcos. Inicialmente ofereci-me para lhe levar a mochila apenas até ao topo da rampa do albergue. Mas era mesmo pesada! Acompanhei-o até à paragem de autocarros. O Walter, com medo que não fosse até ao fim, ainda fez a chantagem psicológica "Que bom! Ainda continua com o espírito do Caminho. A Ajudar os outros.". Não era necessário. Não o ia deixar enrascado. Suei logo pela manhã. Foi a única vez nesse dia, para variar.

Passei uma última vez pelo monumento ao peregrino

Quando regressei ao Monte do Gozo, o céu já estava violeta. Estava a amanhecer. Hora de partir. Finalmente Santiago. Alguns peregrinos estavam no bar da Ciudad de Vacaciones. O Andrew dirigiu-se para lá para comer algo. Mas não era isso que eu queria. Queria tomar o pequeno-almoço no centro de Santiago. Desci o Monte do Gozo, passando por todo o enorme complexo da Ciudad de Vacaciones. Foi quando me apercebi que estava praticamente colado a Santiago. No topo da última colina, esperei que o céu clareasse um pouco mais.

Amanhecer às portas de Santiago

Uma placa do lado esquerdo da estrada por onde seguia, indicava o facto, tinha chegado a Santiago de Compostela. Vi novamente um marco com a distância. Deixara de os ver no quilómetro 11. Estava a 2km da catedral, o quilómetro zero do Caminho Francês. Percorri lentamente, sem pressa, a parte nova da cidade. Era como que um passeio, diferente de todos os outros dias no Camino.

Entrada em Santiago de Compostela

Encontrei uma tabuleta para o segundo e último albergue de peregrinos em Santiago, o albergue Acuário. Àquela hora provavelmente encontraria lugar. Mas deixar já ali a mochila e entrar tão cedo num albergue não me parecia bem. Queria fazer todo o caminho até à catedral com a mochila. Não me libertar daquele peso que contribuía para a condição de peregrino, pelo menos para a minha. No fundo, também queria ficar hospedado no centro da cidade. Continuei.

Segui as setas amarelas escondidas pela cidade, provavelmente despercebidas para um qualquer turista. Passado um pouco, um grupo de peregrinos que seguia a alguns metros à minha frente, após falar com uma mulher espanhola, começou a caminhar para trás, quando uma seta amarela apontava claramente para a frente, na direcção para onde ia. Perguntei à mulher se o caminho não era por ali. "Si, lo camino Francês és por aqui, mas no pasa por la catedral". Ridículo! Nunca cheguei a saber se o Caminho que seguia passava pela catedral. Acho muito estranho não passar. Mas o que é certo, é que o caminho que me indicou, ao fim de 15 minutos, foi dar à Catedral. Minutos antes, conseguira ver pela primeira vez as suas torres à distância.

Torres da catedral à distância

A entrar na parte velha da cidade

A caminho da catedral

Santiago de Compostela

Quase lá!

Chegara finalmente à catedral! Estava na praça do Obradoiro. Tinha feito o Caminho de Santiago a pé. Cada centímetro dele. Passo a passo. Só dias mais tarde é que digeri esse facto. Porque na realidade o meu destino sempre fora Finisterra. Santiago de Compostela era uma meta importante, contudo, era uma das muitas etapas intermediárias. Mas não deixava de ter uma mística enorme. Estava em Santiago! Tinha feito o Camino!

Ainda o sol não se elevara por completo. À sombra da catedral.

Fiquei algum tempo na praça. Sabia que não iria encontrar as caras que queria ver, os companheiros do Camino, mas tinha uma réstia de esperança que alguns surgissem. Sempre que encontrava alguém que conhecera nos últimos dias, as palavras de ordem eram sempre "congratulations", "congratulationes", "congratulacion", "felicitazione", as palavras perdia-me nas várias línguas, mas o intuito era sempre o mesmo. A troca de abraços, os apertos de mão, os beijos na face. Por vezes encontrava algum peregrino que me acompanhava por mais de uma semana. Os laços eram mais profundos com eles. O reencontro mais caloroso. O Miro! Estava lá! O Miro acompanhava-me desde o meu segundo dia. Recordou-me, com emoção, quando me viu a descer umas escadas cravadas na terra, no meu terceiro dia, à saída de Zubiri, quase sem conseguir dobrar os joelhos, sob imensas dores, demorando quase 15 minutos para o fazer. O Miro é muito expressivo nas suas descrições, e fazia sempre uma careta com a língua de fora no canto da boca quando me imitava a descer escadas com as dores nos joelhos. E ali estávamos os dois, sob a sombra da catedral.

Tomei o pequeno-almoço num dos cafés junto à catedral, juntamente com a Jasmine, um alemão e uma sul-coreana que nunca me lembrava dos nomes. Já eram 11:00 e cada vez víamos mais peregrinos sem mochilas. Decidimos começar a procurar por quartos para alugar. Vimos um que era bastante em conta, 12€ por pessoa. Um quarto com 4 camas, mas com condições péssimas. Noutra pediam 75€ por quarto, num hotel de duas estrelas. O quarto era espectacular. A Jasmine ficou por lá. Tinha recebido a notícia de que iria trabalhar para uma nova empresa, com um substancial aumento de ordenado, e não se importava de comemorar assim com aquela "extravagância". Eu e os outros não queríamos dar tanto dinheiro. Separámo-nos.

Ao percorrer as ruas de Compostela, uma pessoa surgiu a correr de dentro de um café e chamou-me. Era a Francesca! A minha primeira companheira de Caminho, embora por um curto espaço de tempo. As duas italianas estavam ali! A Francesca e a Lucia, a peregrina que caminhava lentamente sem pausas nos primeiros dias. Tinham chegado há dois dias atrás. Deixara de as ver há imenso tempo atrás. Foi muito bom revê-las. Iam-se embora no dia seguinte.

Ao caminhar para o local onde as italianas me indicaram estarem hospedadas, encontrei um quarto duplo por 35€, a poucos metros da catedral. Tinha casa de banho privada, e até TV. Um luxo para um peregrino depois de 31 dias a dormir em albergues. Agarrei logo o quarto, mesmo estando só. Pousei rapidamente a mochila e dirigi-me novamente para a catedral. Era o ponto de encontro de todos, e eram quase 12:00, que embora não católico, não queria perder a famosa missa. Novamente, imensos peregrinos conhecidos.

Vista da janela do quarto

Entrei na catedral, já cheia. Imensa gente de pé. O bispo celebrava a missa. Imensos padres, todos de vermelho, exibindo a cruz de Santiago. Dei uma volta pela catedral. Vi o túmulo do apóstolo. Entrei numa fila para umas escadas que subiam, sem saber para o que era. Cheguei a um pequeno espaço, por trás da figura de Santiago, de modo a que se possa cumprir uma das tradições na catedral. Um padre encontrava-se sentado em frente à estátua. Conseguia ver toda a catedral para lá da figura. Abracei a estátua com sinceridade. Para cumprir uma promessa que fizera a alguém, agradeci a Santiago pelo que me tinha sido pedido, em nome dessa pessoa. Esperei a missa toda que o botafumeiro começasse a balançar, mas tal só sucedia nos anos Jacobeos.

Missa na catedral

Já fora da catedral, encontrei a Ema. Despedimo-nos, sem qualquer esperança em voltarmo-nos a ver. O Miro perguntou-me se ia almoçar. Já estava com fome. "Vamos ao melhor sítio de Santiago! Casa Manolo.". Fomos os dois. Parámos primeiro num bar para uma caña com tapas. O Miro resolveu convidar as italianas para almoçar. Tinha o número de telefone de todas as peregrinas do Camino! Incrível. Recebeu um SMS de resposta. Não iam almoçar agora. Seguimos para o restaurante Casa Manolo. Realmente os pratos são enormes. Quase nem comi metade do segundo prato, um "churrasco". No final, Miro foi dormir uma "siesta". Fui dar mais uma volta.

Ruas de Santiago de Compostela

Os peregrinos que tinham ficado na Arca do Pino deveriam estar a chegar. Queria ver a Marie e a Gaeli de novo. E lá estavam elas em frente à catedral, cansadas e um pouco perdidas, sem sítio para dormir. Depois de falar com imensos peregrinos, conhecia praticamente as localizações de todas as pensões das redondezas. A minha pensão já estava lotada. Ajudei-as a arranjar um quarto duplo, por 30€, um pouco mais abaixo na mesma rua onde ficara hospedado. Mais barato que o meu! Ainda iam tomar banho, pelo que combinámos encontrar às 17:00 em frente à catedral. Depois de mais uma volta pela parte histórica de Santiago, fui ao encontro delas.

A catedral, agora com mais luz

Era bom estar com as duas, uma companhia familiar do Camino. O sentido de humor da Marie era terrível, e era impossível não estar de bom humor por perto dela. Queriam ver a catedral, e entrei novamente. Foi quando encontrei o Denis! Novamente alguém que conhecera no início do Camino, em Saint Jean Pied-de-Port. Tinha-o deixado de ver à saída de Burgos, onde me dissera que apanhara uma constipação na noite anterior. Nesse dia tinha voltado para trás, para Burgos, devido à constipação, tendo parado por um dia. Mas recuperara nos dias seguintes, andando sempre 30km por dia. Chegara a Santiago nessa tarde.

Foi a Gaeli que reparou "Que assustador, um olho a olhar lá de cima". Um olho dentro de um triângulo. Um símbolo Illuminati! Ali?!

Continuei a tarde e a noite toda com a Marie e a Gaeli. Penso que não falhámos nem uma rua de Santiago!

A rua mais estreita de Santiago?

Parámos para jantar umas tapas. Acompanhei com cañas, elas com "speciz" ou "spetzi", não me recordo como chamam à bebida na Alemanha, muito popular por lá. No fundo trata-se de uma mistura de Coca-Cola com Fanta laranja. Por volta das 22:00, para meu alívio, encontrámos um Cyber-Café. Já só tinha espaço no cartão de memória da máquina fotográfica para mais 30 fotos. Tinha que descarregar fotos para a pen. Elas aproveitaram e entraram na net. Quando terminei, disseram-me para esperar só mais uns 10 minutos. Fui dar uma volta. Reencontrei a Gordana! Falámos um pouco. Olhei para o relógio. Detestava as despedidas no Camino. No dia seguinte a Marie e a Gaeli iriam de autocarro para Finisterra para se reencontrarem com a Julia. Fiz algo que normalmente nunca faria. Regressei para a pensão. Nunca mais as vi.

Anoitecer em Santiago

Estava cansado e o dia seguinte iria ser mais um dia no Camino. No entanto, estava já no Caminho de Finisterra. Tinha acabado o Caminho Francês. Sentia que iria ser diferente, em todos os aspectos. Não sabia bem porquê.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Dia 30: Ribadiso - Monte do Gozo

Acordei novamente cedo, às 6:00. Já estava no meu horário biológico. Já não conseguia acordar a outra hora. A Marie e a Gaeli estavam acordadas e sorrimos a desejar o bom dia típico. Não sei porque decidi não esperar por elas. Queria caminhar só novamente. Não sabia bem porquê, mas decidi não pensar muito no assunto. Apenas caminhar.

Neblina matinal. Lindo!

Em Arzúa tomei o pequeno-almoço num café. Foi aí a última vez que vi o Diego. Sem saber ainda, nesse dia, iria ser a última vez que iria deixar de ver praticamente todos os peregrinos até então do Camino.

Arzúa. Fiquei fascinado por caminhar na neblina.

Não estava nevoeiro, mas sim uma névoa rasteira ao chão. Foi a primeira vez que a apanhei no Camino e fiquei fascinado pelo efeito.

A caminho de Calle

Parei novamente em Calle para um bocadillo. Enorme! Ficaram todos surpreendidos com o tamanho. Que exagero!

Bocadillo gigante

Para minha satisfação, a neblina demorou a desaparecer.

Caminhava muito rápido, sem qualquer dificuldade. Sentia a velocidade. Passava velozmente por todos sem qualquer esforço. Mesmo com sol. Estava a adorar a sensação.

Já tinha dito que adorei a neblina?

Camino

Calle

Parei em Cerceda para uma Coca-Cola. Continuei rapidamente. Passei por Santa Irene, o local que a Julia tinha falado. Era realmente um deserto. Vi que existiam dois albergues, e mais nada. Nem mais um edifício. No entanto, uma placa indicava 300 metros para o centro do pueblo. Não passei por lá.

Cheguei a Arca, ou melhor, vi a Arca do Pino à distância. O Camino não passa pelo pueblo como indicado pelo meu guia. Apenas passa por um pavilhão desportivo, ou algo do género, e por um café. Teria que sair do Camino para chegar a Arca do Pino. A ideia não me agradou. Bebi uma Coca-Cola e revi umas 20 vezes o mapa da etapa do dia seguinte "Arca do Pino - Santiago de Compostela". Os que passavam por mim, poucos, iam para o Monte do Gozo, e todos me diziam que não lhes agradava a ideia de ficarem ali, tendo que no dia seguinte caminhar muitos quilómetros, perdendo a manhã em Santiago de Compostela. Também não me agradava essa ideia de chegar tarde a Santiago. E não me agradava perder novamente todas as caras conhecidas que iriam ficar em Arca. Mas parecia-me a coisa certa a fazer. Comecei a caminhar. Iria apontar o destino até ao Monte do Gozo. Iria fazer novamente 40km num dia. Também não queria ficar com o estigma dos 40km. Fisicamente sentia-me apto para os fazer, e para ir além deles.

A caminho do Monte do Gozo

A subida a pique de 150m, um pouco depois da Arca, abrandou-me um pouco. Passei ao lado do aeroporto, mas não se conseguia vê-lo. Um avião passou mesmo por cima de mim. Estava tão perto. Passei por Andrew, o Australiano. O molho de folhas de Eucalipto penduradas na sua mochila denunciavam-no sempre. Continuava a coxear, com imensas dores, agora também a tomar Voltarem. Tinha ficado em Arzúa e iria também para o Monte do Gozo. Mas ia lento demais. Despedi-me e continuei com o meu passo.

Em San Paio, parei para uma excelente "tortilha de patatas" com tomate e uma cerveja. Conheci o casal de alemães com a sua filha. Tinham começado em Sarria, numa distância suficiente para que pudessem fazer 100km a pé até Santiago, o mínimo exigido para que seja uma "peregrinação a sério". Sucedeu algo que considerei terrível na altura. Estava na mesa deles a conversar e o homem alemão fez um gesto de que estava com dores nas pernas. Sem dar por isso, saiu-me "I've been walking for 30 days, and I still have pain", mas num tom monocórdico, absolutamente sem expressão, sem ênfase, sem qualquer emoção na voz ou no corpo, exactamente igual ao tipo que vinha a caminhar desde Oslo sem dinheiro, o qual notei algo de estranho nele. Era aquilo o que notei de estranho. Tinha acabado de fazer exactamente o mesmo. Detestei. Porquê? Seria aquele o destino para onde caminhava? Para ver as coisas do caminho com uma naturalidade tão grande que no fundo só sobrasse a indiferença? Nunca. Nunca mesmo. Jurei a mim próprio que nunca ficaria assim. Nem com o Camino, nem com nada. E foi a primeira e a última vez que tal sucedeu.

Os alemães disseram-me que faltavam 6km até ao Monte do Gozo. Na realidade, tinham-se enganado, e faltavam 15km! Quase o dobro. É horrível quando caminhamos uma distância muito maior do que ela é na nossa mente. Custa imenso! Principalmente no final de 40km.

Não sabia o que iria encontrar no Monte do Gozo. O meu guia, como já vinha a ser hábito nas últimas etapas, não entrava em detalhe nenhum. Nem sequer mostrava o tamanho dele no mapa. O meu receio era de que o albergue já tivesse lotado. Quase todos os peregrinos ficavam no Monte do Gozo, no penúltimo dia para Santiago. No entanto, ansiava por ver Santiago à distância. Era o primeiro local de onde os antigos peregrinos conseguiam ver as torres da catedral á distância.

Monte do Gozo

Tinha chegado a Monte do Gozo, exausto. Perguntei a duas peregrinas sem saber de onde eram, com a palavra universal "albergue?". "Three more minutes, straight ahead". Vi o enorme monumento no monte com as duas figuras de peregrinos viradas para Oeste. Olhei também. De início a copa de árvores tapava-me a vista para o horizonte. Mas à medida que caminhava, Santiago surgia aos poucos á minha frente. Tão perto. Podia lá chegar em menos de uma hora.

Monumento ao peregrino

O albergue situava-se mais abaixo, num enorme complexo intitulado de "Ciudad de Vacaciones". Um pouco estranho. Como um coreano me disse no dia seguinte, explicando a razão por não ter ali ficado "a little too modern". Vi numa placa a indicação de 170 camas. O albergue era enorme e apenas ocupava uma pequena parte do complexo.

Ciudad de Vacaciones

Contudo, apenas uns 30 peregrinos se encontravam ali. Apenas conhecia uns 8 peregrinos. O David, o TGV. Um grupo de 3 espanhóis que caminhavam juntos desde Estella. A Jasmine, a croata alemã. Uma sul-coreana e um alemão. O Andrew chegou horas mais tarde, a coxear. Tinha conseguido!

Um substituto do hospitaleiro fez o meu registo. Fiquei num edifício um pouco velho. Os colchões já tinham visto dias melhores. Conheci o meu companheiro de quarto, Walter, um brasileiro. Tinha feito o Camino de bicicleta e iria regressar no dia seguinte para o Brasil.

Ciudad de vacaciones

Mais tarde chegou Manuel, o hospitaleiro. Uma figura. Um tipo de cabelos pretos encaracoladas, que fala e fala e fala e... fala imenso! Mas extremamente simpático. Disse-me para mudar para o edifico novo, pois era muito melhor. De facto, foi como mudar-me para um hotel. Fiquei num quarto apenas com o Andrew. Tudo novo e a cheirar bem. Almofadas! O edifício velho não tinha almofadas.

Sentei-me numas escadas a ver o pôr-do-sol por trás de Santiago. Foi um dos melhores pôr-do-sol de sempre. Existia uma tranquilidade no ar, partilhada por todos os peregrinos. Conseguíamos mesmo senti-la. Uma serenidade incrível. Todos olhavam para Santiago, na direcção do sol. Estava ali o final do Camino para muitos. Foi belo.

Pôr-do-Sol com Santiago no horizonte

Fui jantar ao self-service da Ciudad de Vacaciones com o Andrew. Conversámos um pouco. Contou-me as suas razões para fazer o Camino, e bastante sobre o modo de vida na Austrália.

No final do jantar chegou Bernard. Tinha acabado o Camino no dia anterior. Tal como muitos peregrinos que chegavam à noite, todos diziam que não havia lugar em Santiago. O albergue maior tinha fechado no final de Setembro, e nenhum deles conseguira lugar em hotel ou pensão. Bernard não largara a sua excentricidade. Tinha deixado a sua "bicicleta" em frente à esquadra do polícia para a guardarem, e caminhava com uma mochila, mas... com dois sacos pendurados à frente, nas alças, junto ao peito. Airbags para o caso de cair, como lhe sucedeu no Camino anterior. Algures durante o Camino, tivera a brilhante ideia de pedir "donativo" por cada foto que lhe tiravam. Pedia 1€. Fizera mais de 50€ em poucos dias. Como a Marie disse quando lhe contei "pilgrims buy any shit". De facto, turigrinos. Despedi-me de Bernard. Iria voltar para a Bélgica no dia seguinte.

Conheci uma jovem alemã e um Japonês que fizeram a Via de la Plata. Muito dura, pelas descrições deles. As distâncias entre pueblos chegavam por vezes aos 30km, sem nada entre elas.

Deitei-me às 22:00. Estava exausto. No dia seguinte estaria em Santiago.