segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Dia 9: Nájera - Santo Domingo de la Calzada

Após acordar às 6:00, meia hora depois já estava a caminhar. A Viviane continuava com medo de um confronto directo com o Luís. Saiu primeiro do que eu do albergue, pois o Luís já estava quase despachado para sair. Eu não queria modificar nada no meu caminho devido a ele. Após sair do albergue encontrei a Viviane nas ruas de Nájera, a voltar para trás, perdida na direcção certa do Camino. Ainda fomos comer algo num café que já se encontrava aberto. Em quase todos os pueblos existiam sempre cafés que abriam mais cedo de modo a fazerem negócio com os peregrinos. Era bom para ambos os lados.

Amanhecer a caminho de Azofra

Nunca tinha começado a caminhar tão cedo, mas já me sentia confortável por o fazer. Atravessámos um pequeno bosque à saída de Nájera, completamente de noite, sem lanternas. A maioria dos outros peregrinos que começavam a caminhar de noite, tinham preferência por uma pequena lanterna de alta potência, presa à testa, para iluminar o caminho. A Viviane tinha enviado uma lanterna dessas para Santiago de Compostela, juntamente com alguns 5kg de outras pequenas coisas, quando constatou realmente o peso excessivo da sua mochila. A minha lanterna iluminava apenas a noite nos albergues e tirava dúvidas relativamente a possíveis marcas no caminho nas madrugadas escuras.

Chegada a Azofra

O sol nasceu mostrando um dia mais escuro, ameaçado por nuvens carregadas a sul. Felizmente estavam a afastar-se. Chegámos rapidamente a Azofra, onde fizemos uma pausa num café. O amontoado habitual de peregrinos nos cafés e bares ao longo do Camino. Nenhum sinal do Luís. Por vezes a Viviane olhava para trás e dizia-me "acho que o Luís vem lá atrás!". Epá... mesmo sem querer, quase que me gelava o sangue. Mas nesse dia, felizmente, nunca o chegámos a encontrar. Tínhamos saído mesmo cedo, e não fizemos muitas pausas. De facto, essa etapa do caminho foi um pouco monótona. Apenas dois pueblos entre Nájera e Santo Domingo de la Calzada. Muitas searas e algumas vinhas.

A caminho de Cirueña

Antes de chegarmos a Cirueña parámos numa fonte para comer algo. Junto à fonte existiam umas espreguiçadeiras de cimento, dando para se deitar, com uma caixa de pedras do rio junto aos pés, para quem quisesse massajar os pés. Decidimos não as experimentar. Seria muito mais difícil seguir caminho depois disso. O descanso total era apenas no final da etapa.

Cirueña foi uma desilusão. Um enorme complexo turístico com um campo de golfe às portas e uma aldeia muito pobre por trás.

A caminho de Santo Domingo de la Calzada

Seguimos para Santo Domingo de la Calzada. Após subir um monte, consegue-se avistar a cidade ao longe. Comentámos na altura que já tínhamos aprendido que até chegar ao albergue, ainda iria faltar muito. Até gozávamos com a ideia do albergue ser do outro lado da cidade… quase sempre o era.

Santo Domingo de la Calzada ao longe

Lembrei-me que a Li me tinha aconselhado naquele dia a sacrificar-me por mais uns 7 quilómetros e ficar em Grañón. A Viviane também tinha uma folha com 30 conselhos sobre o Camino, e um deles era ficar em Grañon. Mas a Viviane já estava mais de rastos do que a caminhar. Continuava a caminhar com sandálias e não havia melhoras nos seus pés. Nem sequer lhe sugeri andar mais aquele bocado até Grañon.

Chegámos à parte histórica da cidade e encontrámos um albergue. Pelo meu guia sabia que haviam dois albergues e o outro parecia-me o indicado. Sempre que o meu guia mencionava albergues de “gran tradición” era de seguir para esse albergue.

Entrada do albergue "Casa del Santo"

Decidi procurar pelo segundo albergue "Casa del Santo". Não tivemos que procurar muito, pois encontrava-se logo um pouco depois do primeiro. Não nos arrependemos nem por um momento com a escolha. O albergue era fenomenal! Tivemos uma recepção pelos hospitaleiros numa sala com cadeiras confortáveis, em que era inevitável largar o tradicional e sonoro “ahhhhhh” ao sentar. Possuía um jardim relvado nas traseiras com uma mesa de pedra para refeições. O quarto situava-se num sótão com enormes traves de madeira, com camas individuais, muito acolhedor. Tinha uma pequena cozinha com sala logo após a porta do quarto, mas o albergue também possuía uma cozinha e sala de jantar enorme num edifício após o pátio.

Um dos rituais do dia: lavar a roupa

Junto ao pátio também existia um galinheiro. Não era um galinheiro qualquer, mas sim o que continha os galos e galinhas de substituição para os que estavam na catedral. Não tenho contado e não vou contar as histórias e lendas do Camino neste blog. Seria um trabalho imenso. Santo Domingo de la Calzada tem uma lenda sobre a "galinha que cantou depois de assada". E é tradição, dentro da catedral, num galinheiro, manterem sempre um galo e uma galinha vivos. Diz a tradição que é sinal de muito boa sorte o galo cantar quando entramos. À noite ainda conseguimos entrar na catedral por breves momentos antes de fechar e ver o galo e a galinha.

Catedral de Santo Domingo de la Calzada

Durante o dia todo não nos encontrámos com o Luís. Tinha ficado no outro albergue. Na quantidade enorme de peregrinos que se encontrava diáriamente, não estava a encontrar muito espaço para se formarem grupos de várias nacionalidades. Isso iria mudar mais para a frente, mas até à data ainda não tinha encontrado nenhum desses grupos. Os espanhóis juntavam-se todos em enormes grupos. O mesmo faziam os de língua alemã, francesa e italiana. São os predominantes. Outro grupo bastante numeroso é o dos solitários. São bastantes. São de várias nacionalidades, mas querem sempre caminhar sós. Por vezes juntam-se por pouco tempo a outros. Eu e a Viviane acabámos por formar um pequeno grupo de língua Portuguesa. Em grupos de uma só língua, torna-se muito difícil incluir mais pessoas. E torna-se também quase que uma responsabilidade representar o seu país, pois tendem a ser julgados dessa forma. Os italianos cometeram um erro nessa noite. Ficaram mal vistos por todos a partir daí. Quebraram uma das regras sagradas do Camino. Eram um grupo relativamente grande de 10 pessoas. Deitaram-se depois das 22:00, com as luzes já apagadas em que alguns peregrinos já descansavam desde as 20:00. Estiveram no quarto a conversar e a rirem-se até depois das 22:30. Acordaram o quarto inteiro e não deixaram ninguém dormir. Não tiveram qualquer consideração. Quebraram a regra do descanso dos peregrinos. Não foi por mim, pois nem tinha sono, e na altura nem compreendia ainda bem a necessidade que poderia surgir de descansar à noite no Camino. Era uma regra sagrada que ninguém violava.

Rua de Santo Domingo de la Calzada

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Dia 8: Logroño - Nájera

A azáfama familiar das 6:00 da manhã no albergue. Despertei com o barulho e abri os olhos. Era hora de acordar. Ao descer as escadas do segundo piso, já preparado com a mochila às costas, disse adeus à Viviane. Ela respondeu com outro adeus. Compreendeu. Ainda me perguntou se ia beber café lá fora. Segui em frente. Só bebia café na primeira localidade situada fora de onde saía.

Logroño é enorme. A parte histórica da cidade, que era onde sempre ficávamos nas cidades, situava-se num dos extremos, por onde entrámos. Atravessei todo o resto da cidade à noite. A travessia transforma-se numa caça ao tesouro, sempre à procura do próximo símbolo do Camino. Uma seta amarela que pode estar em qualquer sítio. No chão, numa parede, numa árvore, num poste. Uma vieira de metal na calçada. Uma representação de uma vieira amarela sob fundo azul numa parede. Mosaicos no chão ou na parede. Qualquer indicação do caminho a seguir. Infelizmente, uma grande porção das ruas estavam cortadas pela polícia. Tinha havido a denúncia de um carro armadilhado pela ETA e o aparato policial nas ruas era de meter respeito. Ninguém gostava das grandes cidades. Finalmente saí de Logroño, aliviado por deixar a cidade para trás.

Nascer do sol à saída de Logroño

O sol nasceu com Logroño no meio. É um privilégio poder ver todos os dias o nascer do sol. Primeiro o céu passa de negro para azul-escuro. Corre todas as tonalidades do azul-escuro. Começa a ficar púrpura no horizonte à nossa frente, e amarelo por trás de nós. As cores mudam de minuto para minuto. Nasce então, vermelho e enorme. Damos por isso quando a luz reflectida na nossa pele se torna vermelha. O verde e o castanho que nos cerca ganha cores douradas e únicas. É realmente a hora mágica.

Foi nessa altura, num parque, em que vários habitantes de Logroño faziam as suas corridas matinais, que oiço alguém a "correr" atrás de mim. Era David, o peregrino mais veloz de todo o Camino. Os seus amigos franceses deram-lhe a alcunha de "TGV". Assentava-lhe que nem uma luva. David não corria. Era o passo dele. Rápido! Existiam peregrinos rápidos, mas o David era... bem, o TGV! Era Britânico, alto, muito magro, nos seus 50 ou 60 anos. Acompanhou-me por um pouco, mas tive que lhe dizer que não o conseguia acompanhar. Eu e o David tínhamos uma apontaria para acertar sempre nos mesmos locais e albergues. Víamo-nos sempre em todas as etapas, mesmo quando perdi de vista quase todos e comecei a saltar as "linhas temporais" no Camino. Estava sempre lá. Chegámos a acabar no mesmo dia em Santiago de Compostela.

David em Nájera, em frente ao albergue

À saída de Logroño, já fora da cidade, somos brindados com o Pântano de la Grajera e um pinhal, ambos fantásticos.

Pântano de la Grajera

Com a melhora dos joelhos, caminhava rápido. Ia no grupo da frente. Sentia-me bem. De facto, com as etapas "longas" de 27km, e um passo mais rápido, surgiram as primeiras bolhas nos pés. Nada de preocupante, junto ao calcanhar, pois nunca chegaram a doer. Apenas surgiram porque não espalhava vaselina naquele local, pois de início não sabia bem onde poderiam surgir bolhas. A partir daí, comecei a espalhar.

Navarrete ao longe

Cheguei a Navarrete bastante cedo. Comi um croissant com o meu café solo matinal. O único do dia. O Luís e a Viviane estavam muito para trás.

Navarrete. Mochilas no meio da rua é a sinalização no Camino para um café aberto.

Os últimos quilómetros para Nájera custaram como sempre. São sempre os últimos. Apesar de já estar perto, não cometi o erro de Los Arcos e parei para almoçar e descansar. Sentia-me cada dia mais forte e vencer os declives no caminho já era praticamente insignificante.

Pausa para o almoço


No foto parecem pedras espalhadas. Mas cada pedra forma uma série de imensas torres.

Quando cheguei a Nájera, o albergue ainda não estava aberto. Apenas abria às 2:00. Tivémos que esperar. Foi a única vez que isso sucedeu no Camino. Tinha caminhado bem rápido nesse dia. Tinha-me adiantado e vencido a hora do calor. A temperatura continuava a aumentar de dia para dia. O meu bronzeado de peregrino via-se no escuro!

Albergue fechado

Ao longo do Camino fui deixando várias coisas nos albergues, nas prateleiras de "Peregrino, deixa o que não precisares e leva o que necessites". Em Pamplona, para além das polainas que só ocupavam espaço, e depois de apanhar os dias de chuva, deixei também o protector solar. Grande erro. Podia ter comprado outro, mas fui sempre adiando.

Peregrinos a descansar na relva em frente ao albergue, à beira-rio

Depois do albergue abrir, caminhei um pouco em Nájera para fazer compras e para a tradicional caña na esplanada. O John, passou por mim todo satisfeito com uma toalha e um pedaço de papel na mão. Os peregrinos tinham direito a um bilhete gratuito para entrar nas piscinas que se situavam do outro lado do rio. Dirigia-se para lá. Continuava a olhar para as piscinas com algum desconforto devido aos músculos doridos.

Nájera

À medida que falava com os peregrinos que chegavam, notava que aqueles mais fechados, provavelmente devido aos seus países ou cidades frias no contacto entre as pessoas, iam-se abrindo e começavam a falar mais e a confraternizar com outros.

Ao regressar ao albergue, reparei que a Viviane estava deitada no beliche. Fui ter com ela. Queria conversar a sós para lhe explicar o porquê de não caminhar com ela. Tinha um ar abatido. Pensei até que estaria doente, ou que tinha sucedido algo. E tinha: o Luís. A Viviane já estava a desesperar com o Luís. Nem imaginava. Nesse dia tentara livrar-se dele dizendo que ficava em Navarrete. Mas o Luís disse que também ficava! Disse então que queria caminhar só. Precisou de lhe dizer três vezes que queria caminhar só para ele a deixar. Mas passados 2km alcançou-a novamente e não a largou. Já estava a pensar em apanhar um autocarro para estar um dia ou dois à frente dele, ou planear partir de manhã às 5:00, bem cedo, antes dele. Aquilo já era demais. Eu já tinha decidido expulsar com o Luís do meu Camino. A Viviane não conseguia ser bruta. O Luís tinha uma coisa que abonava a seu favor. Era boa pessoa. Gostava de ajudar. Tudo o resto eram defeitos, mas aquilo era o suficiente para a Viviane ter as dificuldades que estava a ter para se libertar dele. Mas eu não tinha essas dificuldades, e decidi que já era mesmo demais. Sem dizer uma palavra, decidimos os dois afastar o Luís do nosso Camino. Fomos beber uns copos para uma outra esplanada.

O quê? Mais uma caña? Ali? Ok!

No dia anterior tinha pensado bastante sobre o assunto do Luís. Era algo que poderia acontecer fora do Camino, e aí, a minha tendência é para "deixar andar". Se não gosto da presença de uma pessoa, principalmente quando parece que essa pessoa suga as nossas energias, a minha atitude é geralmente de inacção, esperando apenas essa pessoa ir-se embora. Quando essa situação surgiu no Camino, com o Luís, foi diferente. O Camino é curto. Não é uma coisa que se faz quando se quer. É visto como algo único. Algo desejado. Algo comum a todos, mas que cada um tem o seu Camino, e este é sagrado e inviolável. E não há o "faz-se amanhã" ou o "deixa andar". Não! Tinha que resolver a situação JÁ, na hora! Não podia passar mais um dia. Isso obriga a pensar em soluções que no dia a dia são adiadas por uma rotina da nossa maneira de ser. Não decidi ignorar e afastar-me do Luís de um modo trivial e frio.

Ofereci jantar no albergue à Viviane, mas estava a faltar um elemento muito importante: vino! Fomos comprar vinho. Foi então que me apercebi que ao entrar em Logroño, no dia anterior, tinha abandonado Navarra e entrado na região de La Rioja. Já tinha lido que o vinho da La Rioja era bom. O homem da loja que nos vendeu o vinho deu uma palestra de como era um vinho MUITO bom. Comprámos uma garrafa de 2.4€, a pensar que era um vinhozito... ainda me lembro de ter encontrado a mesma garrafa na Galiza a 14€. O vinho era realmente bom. Muito bom! A partir daí, sempre que encontrava um vinho mais ranhoso, comprava sempre no dia seguinte uma garrafa da região da La Rioja. Era qualidade garantida.

O jantar no albergue foi muito agradável. Oferecíamos vinho, e todos ofereciam vinho em troca. O Luís surgia de vez em quando, mas não ficava na mesa. Mas duvidávamos se ele realmente tinha percebido a ideia.

Uns minutos antes das 22:00, quando fumava um cigarro no lado de fora do albergue e quando uma espanhola, também encantada com o vinho da La Rioja, me contava como os Portugueses eram demasiado fechados, mas para não me preocupar porque as espanholas eram brutais, veio o hospitaleiro indicar que eram quase 22:00 e tinha que fechar as portas. Num albergue municipal?! Foi a primeira vez que vi aquilo. E a única também. Havia a hora de apagar as luzes, mas quem quisesse, poderia chegar mais tarde e deitar-se às horas que entendesse. Um pouco contrariado, fui para dentro. No dia a dia, durmo muito pouco. Uma média de 5 a 6 horas por dia. Durante todo o caminho custou-me dormir as 8 horas por noite, mas tentava obrigar-me a isso. O corpo necessitava mesmo de descansar aquelas horas.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Dia 7: Los Arcos - Logroño

Acordámos às 6:00. No dia anterior tinham-nos dito que em Logroño só existia um albergue que tinha apenas 80 camas, e se não apanhássemos lugar, então só apenas num hotel com um mínimo de 40€ por noite. A maioria dos peregrinos tinha esta informação, e embora ninguém quisesse encarar essa etapa como uma corrida, penso que a maioria assim o fez. Fiz o máximo para o evitar, mas fui vítima mesmo assim.

Saída de Los Arcos à noite

Os relatos de encontros de cães menos amigáveis com peregrinos são comuns no Camino. A saída de Los Arcos à noite proporcionou o nosso primeiro e único encontro com um desses cães. Numa estrada sem iluminação, ainda sem luz no céu, vimos o vulto de um cão enorme que ladrava ameaçadoramente a guardar o portão de uma quinta. O camino passava por ali, por um trilho estreito, e não podíamos dar a volta. No meio dos latidos, ouvi o barulho de uma corrente de ferro pesada a arrastar-se pelo chão. Estava preso. Disse à Viviane para não se preocupar, pois o cão estava preso por uma corrente. Continuámos a caminhar, e de repente oiço o barulho da corrente mesmo atrás de nós, onde não deveria estar. O cão tinha a corrente partida! Tinha agora parado de ladrar e começara a rosnar, seguindo lentamente a Viviane. Em Portugal, temos uma frase que descreve perfeitamente o que senti "caíram-me os tomates ao chão!". Penso que esta frase descreve na perfeição aquelas situações de constatação de perigo numa fracção de segundo, em que parece que se abre um vácuo debaixo de nós e, bem... parece mesmo que os tomates caiem nesse vácuo juntamente com parte do estômago. Não sei como é com as mulheres, nem se é assim com todos os homens. Segurei no bastão com força e disse à Viviane para não mostrar sinais de medo, quando ela começou a encostar-se a mim. Mais uns passos e afastámo-nos do cão, que ficou ao portão da quinta, a ladrar novamente. A adrenalina desse momento deu forças para percorrer num ápice a distância até Sansol, quando o sol nasceu. Atrás de nós vimos uma enorme mancha preta no Camino. Eram uns 20 peregrinos todos juntos. Ainda especulámos sobre se não se teriam amontoado antes do cão até que passaram por ele de alguma forma, mas esquecemo-nos disso e não chegámos a perguntar a ninguém.

Nascer do sol, a caminho de Sansol

Fizemos uma pausa em Torres del Rio, para comprar comida numa tienda e tomar o pequeno-almoço. Aí juntou-se o Luís, de Madrid. Ou melhor... colou-se. Não gostei dele desde a primeira vez que o vi. Luís tem os seus quarenta e tal anos, e tem um enorme problema. Fala, fala, fala, fala, fala, ou pior, habla, habla, habla, habla, habla, habla, habla, habla, habla, habla e habla ainda mais. Pergunta se alguém fala castelhano só por cortesia, pois quando respondem que não, continua a falar, falar e falar, com aquele castelhano rápido de Madrid. E mesmo quando eu e a Viviane lhe dizemos para falar mais lento, pois não percebemos tudo o que diz quando fala tão rápido, ele continua a falar como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte. Faz isto e aquilo, já fez ou ainda não fez porque não teve tempo. Ainda por cima, atirava-se com aquela subtileza de elefante à Viviane. Passado um hora já não o podia ouvir.

Torres del Rio

Distanciei-me, acelerando um pouco o passo. Foi quando me apercebi pela primeira vez que já conseguia andar relativamente rápido sem dor nos joelhos. Quando olhei para trás, já não os conseguia ver. Cheirei o caminho. O calor despertava os cheiros da terra. As cores da manhã eram vivas. Tive consciência que estava pela primeira vez no Camino, desde Saint Jean Pie de Port, sozinho, sem dores, e a adorar cada momento. Caminhei até Viana, pela primeira vez, passando por vários peregrinos.

Primeiro encontro com Bernard. A introdução a Bernard fica para mais tarde.

Parei numa fonte na entrada de Viana para me reabastecer de água. Comi qualquer coisa e fumei um cigarro, esperando pela Viviane e pelo Luís. Nada. Perguntei a um peregrino de passagem se tinha visto a "chica brasileña". Sim, tinha, e pelo local que me descreveu, estavam longe ainda. Pelo menos 30 minutos atrás. Segui caminho. A única coisa que me retinha ainda um pouco era de que a Viviane estava com medo de não conseguir percorrer os 27km desse dia, e poderia ficar em Viana. Gostaria de me despedir dela. Mas a influência da "corrida" a Logroño já tinha sido lançada.

A caminho de Viana

Entrei no centro de Viana. Decorriam as festas da cidade. Uma enorme agitação. Todos os homens vestiam camisa branca com lenço vermelho ao pescoço. As mesas e cadeiras dos bares inundavam as ruas apinhadas de gente. Muitos peregrinos não resistiam à tentação e sentavam-se a refrescarem-se com uma caña. Numa outra ocasião, teria sido o primeiro a sentar-me numa dessas mesas. Mas nessa tarde não. Queria sentir o caminho. Segui para fora de Viana.

Fiesta em Viana

O troço entre Viana e Logroño é penoso. Estava um calor enorme. Cada vez maior de dia para dia. O verão decidiu mesmo aparecer em Setembro. Lembrei-me de uma frase que um peregrino me disse sobre o Camino:

"Camina como un viejo para llegares joven a Santiago"

Certamente estava a seguir indirectamente esse conselho nos últimos dias. Embora conseguisse caminhar rápido, decidi seguir conscientemente o conselho para caminhar sob o sol tórrido dessa tarde. Muitas pausas ao caminhar, sem parar demasiado tempo. Passo lento.

Logroño estava longe e demorou a chegar. Comecei a lamentar a perda de Viviane. Entre Viana e Logroño apenas encontrei um peregrino de bicicleta, o qual conversei um pouco. De facto, passou por mim três vezes. A primeira para falar. A segunda para trás, em alta velocidade, pois esquecera-se da sua bolsa com todo o dinheiro a 6km atrás. E a terceira, mais relaxado já com a sua bolsa, rumo a Logroño. Quase no final dos 27km, os pés doíam, as pernas prendiam e os joelhos queixavam-se. Só mais tarde aprendi a detectar o limite em quilómetros de dor de cada parte do corpo. Limite esse, que ia aumentando de dia para dia. Certamente não estava nos 27km ainda.

Logroño à distância

Desde a altura em que se vê Logroño ao longe, até lá chegar, é uma eternidade. É tudo uma sugestão para a mente. Julgamos que estamos quase lá, quando na realidade, ainda nem perto estamos. Aos poucos fomos aprendendo que entre ver uma cidade ao longe e chegar ao albergue, pode até implicar um almoço pelo meio, e torna-se assim muito mais fácil.

Entrada em Logroño

Finalmente a ponte de Logroño! Fui directamente ao albergue. Os hospitaleiros eram de uma simpatia enorme e refrescante. Disseram-me que raramente viam um Português, mas que a dois dias à frente, caminhava uma Portuguesa. Nessa altura, dois dias à frente era mais longe do que no continente ao lado, separado por um oceano.

Logroño

Embora compreendesse porquê, não deixava de achar incrível. A Italiana com a perna em mau estado, que caminhava lentamente, mas sem parar, chegou primeiro do que eu.

Estava na hora de cumprir o ritual sagrado do fim da tarde: conhecer o local e beber uma caña na melhor esplanada que encontrasse. Assim o fiz. Ainda não o disse, e vou aproveitar agora: os espanhóis são uma lástima a tirar imperiais! Por isso é que eu chamo caña àquilo, porque de imperial (ou "fino", para os leitores do norte), aquilo não tem nada! Tão mal tiraaaaado! Em Puente la Reina, quando pela primeira vez explodi na minha constatação de uma miséria de caña, o tipo que estava a servir na esplanada disse-me "cheira-me que você também é Português". Pronto... apenas os Portugueses compreendem.

Caña em Logroño

Quando regressei ao albergue, vi a mochila familiar da Viviane. Ela tinha conseguido! Recuperei algum ânimo, mas rapidamente passou quando ouvi a voz do Luís ao longe. Arggg! Aquele tipo provocava-me quase uma reacção alérgica.

Viviane encontra no albergue o primeiro Brasileiro do Camino

Fui jantar com a Viviane, o Luís e o Dinis. Embora ainda não tenha mencionado o Dinis, foi o primeiro peregrino elegível que conheci. Digo elegível, porque o primeiro peregrino que realmente conheci, que me acompanhou desde Bayone a Saint Jean Pied de Port, foi um italiano, mas que estava a regressar para ir buscar o carro dele, depois de já ter feito o Camino. O Dinis, cujo nome pronuncia-se "Déni" em francês, é Canadiano, de uma parte do Canadá muito rara pelo Camino. De facto, os Canadianos que se encontram pelo Camino são todos do Quebec. Dinis era da Nova Escócia. Jantei com ele na primeira noite em Saint Jean Pied de Port, e viria a ser o meu último companheiro de Camino até Finisterra. Tinha uma profissão interessante. Era um "Park Ranger", e em cada três anos, de modo a conseguir promoções, escolhia ir para um novo parque natural no Canadá. Nos últimos três anos, fora destacado para o Alasca.

Logroño à noite

Dinis falava muito mal espanhol, e falávamos Inglês entre nós. Viviane falava muito mal Inglês, e falávamos Português entre nós. Luís falava muito mal fosse o que fosse, e só falava Castelhano em alta velocidade. A comunicação era engraçada, à falta de outra palavra. Por algum motivo, o Luís teimava que eu não percebia Castelhano e usava a Viviane para que me traduzisse tudo. Desisti. O Luís irritava-me à brava. É um daqueles espanhóis típicos que os Portugueses detestam, chicos-espertos. Nem faltava a unhaca no dedo mindinho. Ao jantar passei-me. O tipo até decidia por nós. "Para esta mesa, um jarro de cerveja sem alcool e uma botelha de água". Uma botelha nos c****, isso sim. Escusado será dizer que bebemos todos vinho. Eu e o Dinis ainda bebemos uma segunda garrafa só entre nós hehe. Como pude constatar mais tarde, eu e aquele tipo éramos um perigo a beber vinho.

Park Ranger + vino

Agora até parece cómico, mas na altura, aquilo estava-me a afectar e não queria mais o Luís ligado de alguma forma ao meu Camino. Queria-me livrar da influência negativa dele. Decidi apenas o que fazer na manhã seguinte.


Uma das poucas fotos que tenho do grunh... Luís

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Dia 6: Estella - Los Arcos

O albergue em Estella "ofereceu" o pequeno-almoço. Café, chá, leite, tostas, bolachas, manteiga e algumas variedades de doce. Os pequenos-almoços dos albergues nunca satisfaziam como deve ser, mas era agradável a azáfama da manhã na cozinha. Partimos com os estômagos mais consolados, rumo a Los Arcos. Os joelhos ainda doíam, embora cada vez menos a cada dia que passava. A companhia constante da Viviane ao caminhar ajudava a esquecer a dor.

Circulo de cânticos à volta de um candeeiro, ainda de noite.

Mal amanheceu chegámos a Irache. Paragem OBRIGATÓRIA na "Fuente del Vino". Ahhh o vinho pela manhã. Faz milagres. Tipo, aqueles milagres de pessoas com muletas que começam a andar sem elas. Bem... não exageremos, foi mais do tipo de pessoas com bastões que se esqueciam deles na fonte para caminhar, depois de uns copos em convívio ;) Hmmm, os meus joelhos deixaram de doer! E deu realmente energia para o Caminho! Dois espanhóis ficaram lá o dia todo. À noite dormiram no mato. Um deles foi picado por um bicho em todo o lado nas costas, e... não sentiu nada! Pronto, já estão a ver mais ou menos o tipo de milagres que uma fonte de vinho pode provocar, não é?

Fuente del Vino

Aliás, 'vino', intitulado históricamente por "combustível do peregrino", é uma bebida quase obrigatória no Camino. Quer a acompanhar uma refeição num restaurante num "menu del peregrino" ou nas mesas de um albergue, ou até mesmo numa mochila. À noite, o vino relaxava os músculos. Entre outras coisas também. Já faz muitos anos que bebo vinho, mas, acho que nunca bebi tanto por tantos dias seguidos como no Camino! Então a partir de La Rioja... já lá vamos.

Nascer do sol, a caminho de Azqueta

Saindo daquele antro de perdição, que é a fonte de Irache, chegámos a um pueblo chamado Azqueta, onde tivemos uma surpresa agradável. Azqueta fica num vale juntamente com outros três pueblos. Todos os anos os quatro pueblos juntam-se e fazem o "Dia del Valle". E nós passámos mesmo nessa altura, exactamente pelo pueblo que iria ser o anfitrião da festa. Na subida para o pueblo, ouvimos à distância os cânticos tradicionais do Vale, cantados na rua pelos seus habitantes. Eram 9:00. Chegámos mesmo no fim, e no início do pequeno-almoço. Chocolate quente com bolachas de amêndoa, café, chá e outras coisas mais. Tudo oferecido aos peregrinos. Da população local destacava-se um homem de idade, cabelos grisalhos e barba comprida. Quando soube que a Viviane era Brasileira, disse-lhe que ela tinha que ir a casa dele. Viviane olhou-o de alto a baixo e recusou. Ele disse então:

"No pareces brasileña porque no reconoces Pablito".

Eu e a Viviane demos um "Haaaaaa!" em estereo. Ambos tínhamos lido em sítios diferentes sobre Pablito, que é um personagem bastante conhecido no Camino. Oferecendo os seus cajados de avelã para os peregrinos que passavam pela "sua terra" como ele orgulhosamente se referia. Partilhando também alguma da medicina tradicional do Camino, como soubemos horas mais tarde, já em Los Arcos. Pablito oferece cerca de 1000 bastões de avelã por ano aos peregrinos que vão a sua casa, e já o faz há mais de 20 anos. Basta chegar a Azqueta e perguntar por Pablito que indicam logo a sua casa, sempre aberta a peregrinos.

Local do desayuno

A Viviane tem todas as nossas fotos com Pablito. Embora existam bastantes fotos dele pela net, só coloco aqui as fotos que tirei ou que os meus companheiros tiraram. Só muito para o final do Camino é que me apercebi que infelizmente não estava a tirar fotos a quase ninguém. Tirava imensas fotos ao Caminho em si, mas não às pessoas. Não cometam este erro. Espero que as fotos que ainda me irão enviar tapem um pouco estes buracos.

Desayuno com a população local

O almoço no vale seria mais tarde, e fomos todos convidados a ficar. Seguimos caminho, apesar da descrição da comidinha caseira ser muito tentadora.

Com bastantes calorias de reserva, seguimos para Villamayor de Monjardín. Um pueblo magnífico. Depois disso, sabíamos que iríamos ter 12km sem encontrar nada. Só vinhas e searas.

Villamayor de Monjardín

Chegando à parte das searas, que é praticamente todo o caminho, o chão é constituído de pedra miúda, bastante mau para os pés. Pela primeira vez no Camino os pés doíam bastante. Uma vez que os joelhos não doíam tanto nesse dia, segui num passo mais rápido juntamente com a Viviane. Faltava cerca de uma hora para chegar a Los Arcos, e decidimos não parar para almoçar. Foi um erro. Deste modo, a última parte do Caminho pareceu interminável. Os dias estavam a ficar cada vez mais quentes. Em Setembro, estava a surgir um verão com toda a sua força no Camino. À noite andávamos de t-shirt, e de dia, procurávamos ávidamente por sombras.

Vinhas

Searas

Na esplanada do café à sombra da igreja, já em Los Arcos, na nossa segunda caña, tivemos o primeiro contacto com Luís, de Madrid. Deveria ter desconfiado logo na altura quando se sentou na nossa mesa, sem termos sido nós a iniciar conversa com ele. Amanhã falo mais um pouco sobre o Luís. Brrrr!

Los Arcos

Nessa noite fomos jantar uma paella. Parece ser o único prato em Espanha em que se encontra arroz! A Viviane, habituada no Brasil a comer arroz em quase todas as refeições, já andava a desesperar. Recordando-me das refeições que tive em Espanha, as únicas vezes que comi arroz, foi só mesmo em paellas.

Vista do claustro da igreja de Santa María